Meu amigo Parreira
Pedro Henrique Barreto
Parreira, eu sou como você. Eu torço demais pelo Cafu, Roberto Carlos e Emerson. Queria que eles estivessem como quatro anos atrás, soberbos, imparáveis e incomparáveis. Queria que a experiência e a categoria deles bastassem, que não precisassem de mais nada em campo para liderar esse time ao título. Mas a realidade é outra, Parreira.
Ontem, fizemos nossa pior partida até aqui no Mundial, meu caro (não é opinião somente, as estatísticas mostram isso). Liquidamos Gana mais pela atitude peladeira daquela defesa que por nosso talento. E assim como você Parreira, eu não entendi o retrocesso de um time que estava subindo de produção. A propalada posse de bola foi pras cucuias (48%, e não 45% como dito por ai), os passes horrorosos se multiplicaram a rodo e o time jogou na base do contra-ataque durante 90 minutos. Isso contra Gana, que passou a ter uma noção mínima de estratégia futebolística de dez anos pra cá.
Talvez não tenhamos evoluído nessa partida pela ausência de Robinho, o flamejante. Ou ainda, pelo péssimo dia de nossas estrelas que, à exceção de Ronaldo e sua pintura, a rigor nada fizeram em campo. Mas me parecem explicações meio vazias, professor. Algo meio Tostines: não renderam por um motivo e o grande desafio está em se concentrar na raiz do problema. Em um jogo no qual Ricardinho joga vinte minutos e sai de campo como o mais lúcido e o mais ágil nos lançamentos, algo definitivamente está errado.
A intenção foi ótima, Parreira: fazer o time prender mais a bola e girar o jogo com velocidade. O mérito é todo seu, porque duvido que na hora da substituição alguém não tenha xingado. Mas era Gana, que já tinha até desistido do jogo e dava espaço para nossa criação. Melhoramos sim, o passe. Zé Roberto fez o seu, merecidamente. Cafu e Roberto Carlos poderiam ter feito o mesmo. E aí seria 5x0, e aí a coletiva de imprensa seria diferente, né mestre. Você não precisaria responder questões insistentes sobre “futebol-arte” e “espetáculo”. Sairia contente pela chuva de gols e teria a certeza de que estamos no caminho certo.
Por outro lado, Dida poderia ter esquecido o pé-de-coelho no vestiário e Gana teria empatado no finzinho do primeiro tempo. O bandeira acertaria o impedimento de Adriano. Sufoco. Nervosismo, passes errados e a empolgação crescente do lado de lá. E ai, Ronaldo decidiria em mais uma jogada de outro planeta. Na coletiva, ninguém se atreveria a falar de futebol arte. “É o melhor dos africanos, jogaram de igual pra igual e Copa do Mundo e é isso ai. Vencemos e ponto final”, eu diria no seu lugar, Parreira. E acho que você balançaria a cabeça, acrescentando que Lúcio está há 5 horas sem levar cartão e que a defesa mereceu nota 10 e que estamos compactos e confiantes para as quartas-de-final.
Mas no hotel, Parreira, eu seria obrigado a abrir o jogo. Dá pra vencer com arte, sim, capitão. Dá pra varrer qualquer time até a final com futebol vistoso, de toques rápidos e de inversões constantes de jogo. Dá pra ter golaço, tabelas e um time que você que nem sabe dizer quem é meia e quem é atacante. Lembra do Japão, Parreira? A gente não jogou melhor que ontem? “Ah, mas era Japão, e tiveram que se abrir pra tentar se classificar”. Ora, Gana não jogou escancarada ontem?
Eu acho que a gente pode tentar fazer algo diferente, Parreira. Precisamos do Ronaldinho. Mais do que nunca contra a França, o jogo do troco. E pra ele jogar, o ímpeto ofensivo tem que ser maior. Juninho pode ser o nosso Deco, não acha? Melhorar esse passe, liberar Kaká pra banda direita e o próprio Ronaldinho para o ataque. Edmilson era seu sonho, comandante, mas fazer o quê? Ficar com Gilberto em vez de Emerson. Marca melhor. Sai com mais qualidade. É mais habituado a jogar de primeiro volante. Atravessa melhor momento.
Pra aproveitar ainda mais o toque final de Ronaldinho Gaúcho, há que se pensar nas laterais. Com Juninho no meio e Zé Roberto mais na contenção, podemos liberar o avanço com mais constância. Cicinho está voando em campo, Parreira. Gilberto ainda marca mal, mas dá uma energia brutal lá na frente. Os dois fariam os gols que Cafu e Roberto Carlos perderam ontem, ou ao menos cruzariam aquelas bolas. São humildes, alguém ai duvida? Não precisam de gol. Parecem ter mais fôlego que os atuais laterais e – olha a surpresa! – são exatamente as peças que, somadas às de cima, formaram o esquadrão da Copa das Confederações. Eu também gosto de Cafu, Roberto Carlos e Emerson, Parreira, queria vê-los consagrados dia 9 de julho em Berlin e trabalhando como auxiliares técnicos nas próximas 8 copas. Ah, você quer pelo menos um deles em campo? Deixa o Cafu, então vai. É capitão do time, tudo bem, conta um crédito gigantesco. Mas vamos pensar no bem do Ronaldinho contra a França. Vamos colocar essa gente pra jogar. Se não der certo, nem precisa cumprir nossa regra de só mudar aos 15 minutos do segundo, a gente volta com os antigos logo cedo. Mas vamos tentar, vai?
Parreira, eu sou como você. Eu torço demais pelo Cafu, Roberto Carlos e Emerson. Queria que eles estivessem como quatro anos atrás, soberbos, imparáveis e incomparáveis. Queria que a experiência e a categoria deles bastassem, que não precisassem de mais nada em campo para liderar esse time ao título. Mas a realidade é outra, Parreira.
Ontem, fizemos nossa pior partida até aqui no Mundial, meu caro (não é opinião somente, as estatísticas mostram isso). Liquidamos Gana mais pela atitude peladeira daquela defesa que por nosso talento. E assim como você Parreira, eu não entendi o retrocesso de um time que estava subindo de produção. A propalada posse de bola foi pras cucuias (48%, e não 45% como dito por ai), os passes horrorosos se multiplicaram a rodo e o time jogou na base do contra-ataque durante 90 minutos. Isso contra Gana, que passou a ter uma noção mínima de estratégia futebolística de dez anos pra cá.
Talvez não tenhamos evoluído nessa partida pela ausência de Robinho, o flamejante. Ou ainda, pelo péssimo dia de nossas estrelas que, à exceção de Ronaldo e sua pintura, a rigor nada fizeram em campo. Mas me parecem explicações meio vazias, professor. Algo meio Tostines: não renderam por um motivo e o grande desafio está em se concentrar na raiz do problema. Em um jogo no qual Ricardinho joga vinte minutos e sai de campo como o mais lúcido e o mais ágil nos lançamentos, algo definitivamente está errado.
A intenção foi ótima, Parreira: fazer o time prender mais a bola e girar o jogo com velocidade. O mérito é todo seu, porque duvido que na hora da substituição alguém não tenha xingado. Mas era Gana, que já tinha até desistido do jogo e dava espaço para nossa criação. Melhoramos sim, o passe. Zé Roberto fez o seu, merecidamente. Cafu e Roberto Carlos poderiam ter feito o mesmo. E aí seria 5x0, e aí a coletiva de imprensa seria diferente, né mestre. Você não precisaria responder questões insistentes sobre “futebol-arte” e “espetáculo”. Sairia contente pela chuva de gols e teria a certeza de que estamos no caminho certo.
Por outro lado, Dida poderia ter esquecido o pé-de-coelho no vestiário e Gana teria empatado no finzinho do primeiro tempo. O bandeira acertaria o impedimento de Adriano. Sufoco. Nervosismo, passes errados e a empolgação crescente do lado de lá. E ai, Ronaldo decidiria em mais uma jogada de outro planeta. Na coletiva, ninguém se atreveria a falar de futebol arte. “É o melhor dos africanos, jogaram de igual pra igual e Copa do Mundo e é isso ai. Vencemos e ponto final”, eu diria no seu lugar, Parreira. E acho que você balançaria a cabeça, acrescentando que Lúcio está há 5 horas sem levar cartão e que a defesa mereceu nota 10 e que estamos compactos e confiantes para as quartas-de-final.
Mas no hotel, Parreira, eu seria obrigado a abrir o jogo. Dá pra vencer com arte, sim, capitão. Dá pra varrer qualquer time até a final com futebol vistoso, de toques rápidos e de inversões constantes de jogo. Dá pra ter golaço, tabelas e um time que você que nem sabe dizer quem é meia e quem é atacante. Lembra do Japão, Parreira? A gente não jogou melhor que ontem? “Ah, mas era Japão, e tiveram que se abrir pra tentar se classificar”. Ora, Gana não jogou escancarada ontem?
Eu acho que a gente pode tentar fazer algo diferente, Parreira. Precisamos do Ronaldinho. Mais do que nunca contra a França, o jogo do troco. E pra ele jogar, o ímpeto ofensivo tem que ser maior. Juninho pode ser o nosso Deco, não acha? Melhorar esse passe, liberar Kaká pra banda direita e o próprio Ronaldinho para o ataque. Edmilson era seu sonho, comandante, mas fazer o quê? Ficar com Gilberto em vez de Emerson. Marca melhor. Sai com mais qualidade. É mais habituado a jogar de primeiro volante. Atravessa melhor momento.
Pra aproveitar ainda mais o toque final de Ronaldinho Gaúcho, há que se pensar nas laterais. Com Juninho no meio e Zé Roberto mais na contenção, podemos liberar o avanço com mais constância. Cicinho está voando em campo, Parreira. Gilberto ainda marca mal, mas dá uma energia brutal lá na frente. Os dois fariam os gols que Cafu e Roberto Carlos perderam ontem, ou ao menos cruzariam aquelas bolas. São humildes, alguém ai duvida? Não precisam de gol. Parecem ter mais fôlego que os atuais laterais e – olha a surpresa! – são exatamente as peças que, somadas às de cima, formaram o esquadrão da Copa das Confederações. Eu também gosto de Cafu, Roberto Carlos e Emerson, Parreira, queria vê-los consagrados dia 9 de julho em Berlin e trabalhando como auxiliares técnicos nas próximas 8 copas. Ah, você quer pelo menos um deles em campo? Deixa o Cafu, então vai. É capitão do time, tudo bem, conta um crédito gigantesco. Mas vamos pensar no bem do Ronaldinho contra a França. Vamos colocar essa gente pra jogar. Se não der certo, nem precisa cumprir nossa regra de só mudar aos 15 minutos do segundo, a gente volta com os antigos logo cedo. Mas vamos tentar, vai?


Eu gostei.
Dizem à boca pequena que Emerson e Adriano voaram da equipe titular. Vamos ver se isto se concretiza no sábado.
Eu gostei muito do texto. Apesar de já ter dito no comentário do outro texto, concordo muito com o Pedro.
Muito bom. Assim como Ricardinho nos 8 minutos que jogou no último jogo, foi o comentário mais lúcido sobre a seleção brasileira.
Só não concordo quando fala do Gilberto. Muito se diz que o lateral marca mal, mas pouco de concreto para embasar tal afirmativa. Portanto, apresentemaos alguns números:
Roberto Carlos: 3 desarmes em dois jogos (Austrália e Croácia)
Gilberto: 6 desarmes em um jogo (Japão)
Posso estar enganado, mas não me lemnbro de nenhum desarme de Roberto no jogo contra Gana.
Irônico não? O Gilberto marca muito melhor que o Roberto Carlos. Também ataca muito melhor, é só contar o número de vezes em que foi ao fundo. Cruza melhor, quem não se lembra o que o camisa 6 fez no último jogo em sua única tentativa de cruzamento na copinha. Ah, finaliza melhor. Acertou um belo chute cruzado contra o Japão, premiando sua bela atuação. Roberto pipocou com um biquinho fracote, o famoso "peidinho" das peladas e nos matou de raiva no último jogo.
Ah, e a nossa defesa? Que beleza de atuação!!! Tomamos um gol, Lúcio não fez nenhuma falta, deu um passe para o segundo gol contra Gana... Acho que o Henri está adorando. Deve estar louco pra cabecear uma bola dentro da pequena área. Pra jogar em cima do zagueiro que não faz uma falta. DEve esatar sedento por só uma das oportunidades que os atacantes de Gana tiveram. Isso pra não falar dos outros jogos.
A verdade é, amigos, que a história agora é outra. A copinha começa agora. E é só para maiores, com já rotularam por aí. Zagueiro tem que fazer falta. Lateral tem que desarmar, cruzar e chutar.
Muito tem se falado que o Brasil cresce contra time grande... querem saber, o Brasil tem qeu crescer mesmo. Tem que jogar com mais raça, com mais (g)ana (né Chico?). Falta ao Brasil jogar com um time grande, que não tema o time canarinho só de ver aquelas 5 estrelas. A copa começa agora.
Por fim, já repararam que um dos patrocinadores da seleção é a VARIG!?! Bom, vamos torcer pro nosso time voltar o mais tarde possível da Alemanha. Ou corre o risco que ter o vôo cancelado.
Podiam enviar esse texto pro Parreira, né?
muito bom esse texto. meio "meu caro amigo".
beijocas!
Perfeito. Vc disse tudo que até mesmo o Parreira sabe mas tem vergonha de admitir. Mandou bem abraços!!!
Pé de uva não é flor que se cheire. Podemos chorar até o fim, o cara é marrento e não muda nada. Ele nos faz torcedores mais fortes. Isso, claro, aqueles que não morrerem com ele.
Ninguém mandou o texto do Pedro pro Parreira, né?
Super color scheme, I like it! Good job. Go on.
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